Um baptizado nada convencional

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O que é que o Fundão tem a ver com África? Nada…ou talvez tudo, pelo menos para mim!

Não escondo a minha paixão por África e Sul, o meu ponto cardeal preferido. É para lá que rumo cada vez mais, tão frequentemente que me sinto como toda a vez que piso a imaginária linha do Equador, com um pé em cada hemisfério, balançando de um lado para o outro… a minha casa em Lisboa, a minha casa nómada algures em África.

Sim, é para lá que rumo, sem questionar o destino ou o porquê. África e o Sul, basta-me! Basta-me, até que certo dia me surja por email um irrecusável convite da Chefs Agency:

“Gostava de te convidar para seres madrinha de uma cerejeira do Fundão. O apadrinhamento vai ser feito num programa que inclui uma viagem de balão pelas cerejeiras em flor e provas dos sabores locais! Posso contar contigo?”

Logo as minhas memórias africanas me assaltaram com experiências emocionais e visuais que jamais esquecerei. Lembrando-me quando adoptei uma chita na África do Sul, fiz um passeio de balão ao amanhecer na savana do Quénia e me deslumbrei com um campo a perder de vista com amendoeiras em flor em Marrocos.

Bem, troquemos então o cenário e as “personagens”, deixemos só ficar a experiência e a emoção, e rumemos ao Fundão. Dizem ser terra de 365 dias de descoberta; vou-me contentar com um para abrir o apetite, já que cheguei de noite, mas não tarde demais para me repimpar com as delícias beirãs de um jantar que parecia não ter fim no restaurante do Hotel Alambique d’Ouro.

De barriga mais que cheia deitei-me e, poucas horas depois, com a digestão quase acabada de fazer, foi o despertar. Era tempo de ver o nascer do dia de uma maneira pouco quotidiana, a bordo de um balão. Experiência que esteve por um fio para não se concretizar, pois o vento do norte teimava em impôr-se. Mas, diz o ditado popular, que “a esperança é a última a morrer” e assim foi. Depois de algum impaciente tempo de espera deixámos que o sol se levantasse pois, normalmente, quando o astro-rei dá o ar da sua graça o vento acalma-se e, quando menos esperava, já estava dentro de um imenso cesto a levantar voo, suave suave, num silêncio avassalador, só interrompido de quando em vez pelo barulho do gás injectado no balão, com a sua enorme chama.

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A intenção era sobrevoar Alcongosta e as suas imensas encostas cobertas de cerejeiras em flor, mas as condições atmosféricas não eram favoráveis. O vento iria voltar e seria arriscado ir até lá. Contentámo-nos por levitar e flutuar cerca de 50 minutos pelos campos e vales verdes da região do Fundão, com as serras em cenário de fundo, num amanhecer inesquecível, numa dança mágica de balões, naquelas Passarolas voadoras – obrigada Frei Bartolomeu de Gusmão (os irmãos Montgolfier que me desculpem!).

© photos Maria João Pavão Serra /All rights reserved

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Depois de uma aterragem perfeita, foi tempo de brindar o dia num picnic montado num campo de nenhures, onde não faltaram os produtos da região, queijos, enchidos, pão, pastéis de Cereja e Sumo Compal Cereja (um néctar de sabor intenso e inigualável, feito a partir da cereja congelada descaroçada. Uma inovação que resulta de uma parceria entre a marca Compal e a Câmara Municipal do Fundão)

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E, claro, um brinde com espumante, ritual que faz parte desde que em França começaram os passeios de balão e se brindava com champagne ao aterrar. Uma prova dada a quem via chegar aquela estranha passarola voadora, que eram compatriotas franceses que chegavam do ar e não uns seres extra-terrestes, ou bruxos e demónios vindos do além.

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Depois, já por terra, rumámos então até Alcongosta, conhecida como a “terra da cereja” situada na encosta da serra da Gardunha. Aí, subimos a bordo do pequeno Comboio Turístico para, finalmente, termos o “encontro” mais esperado.IMG_3221

Atravessámos o pequeno vilarejo e, de repente, ei-las, as Cerejeiras em Flor. Uma paisagem tingida de um branco a perder de vista, uma benção da Mãe Natureza! A Primavera em todo o seu esplendor.

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Confesso que sempre que pensava em árvores em flor logo me vinha à lembrança a amendoeira. Sei que o fenómeno, conhecido por sakura, das cerejeiras a florir no Japão, é mundialmente conhecido, mas talvez para mim distante em todos os sentidos. Talvez estivesse à espera deste encontro, para me maravilhar e render a esta maravilha da natureza.

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A cerejeira fica pouco tempo florida e as suas flores estão normalmente associadas à fragilidade da vida, cuja maior lição é aproveitar intensamente cada momento: eu acrescentava-lhe ainda a delicadeza, beleza e pureza.

© photos Maria João Pavão Serra /All rights reserved

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Ainda em Alcongosta deu-se então outro momento esperado, o Apadrinhamento de uma Cerejeira, num “baptizado” muito especial. Momento emotivo em que plantei uma árvore e me tornei madrinha da mesma, num evento em plena comunhão com a Mãe-Natureza, minha comadre!

Quando apadrinhamos alguém ou alguma coisa, ligamo-nos para sempre, num elo que não deve ser quebrado. O compromisso de cuidar, amar e proteger é como a raiz que prende uma árvore à terra. Mais do que esta acção simbólica, ser Madrinha de uma Cerejeira do Fundão é sentir que estou a contribuir para a regenaração da natureza e o embelezamento da região.

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De vez em quando mudar a rota de Sul para Norte não é de todo uma má ideia. E, para experenciar estes momentos não precisa de visitar três países, lá na África ou o longínquo Japão. O Fundã, é logo ali. E não se esqueça: Apadrinhe uma Cerejeira, uma cerimónia que pode ser realizada em qualquer altura do ano. Eu já tenho a minha afilhada. Em Junho volto para a Festa da Cereja e daqui a uns anos vou vê-la em flor e, mais tarde, enfeitada com brincos cor de rubi.

P.S

Apadrinhar uma cerejeira, fazer um passeio de balão ou de comboio e participar na apanha da cereja são algumas das actividades promovidas pelo Município do Fundão para fomentar o turismo da região, sempre em torno da cerejeira nas suas várias fases.
Entre 13 de Maio e 10 de Julho tem início o programa É Tempo de Cerejas, que promove a apanha do fruto no pomar e a degustação de produtos locais.
Entre 9 e 12 de Junho tem lugar a Festa da Cereja, um evento que, além de valorizar o fruto em si, realça outros produtos como os pastéis e os licores de cereja.
Preço do passeio de Balão: €150/pessoa
Preço do passeio de comboio: €2,5/pessoa
Apadrinhamento da cerejeira: €20€/ano
Marcações e reservas através do 275779040 e/ou comercial@fundaoturismo.pt
www.cm-fundao.pt

*Este blog não é escrito ao abrigo do acordo ortográfico