Falava eu no post anterior do regresso de Karen à Dinamarca e de como ela se tinha entregue por completo à escrita, quando vi surgir a manhã e me calei. Agora que o luar brilha no céu, eis que me disponho a continuar a narração…
“Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngong.
O equador passa a sessenta quilómetros a norte desta região e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-nos mais perto do sol, mas as madrugadas e os fins de tarde eram límpidos e tranquilos e as noites frias.
A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável. A terra não era farta nem luxuriante; era África destilada por dois mil metros de altitude, a essência forte e depurada de um continente.” …
É assim que começa Out of Africa, o livro que Karen publica em 1937, um canto de um enorme amor e de imensa saudade ao país que a adoptara e enfeitiçara para sempre. Bastantes anos mais tarde é assim também que começa o filme, com Meryl Streep em voz off numa imagem esmagadora da savana africana, e o qual tornaria a vida de Karen Blixen e Denys Finch-Hatton num imortal romance e num verdadeiro hino à beleza de África, colocando o Quénia nas rotas turísticas de todas as agências de viagem pelo mundo fora.
Mas apesar do imenso sucesso que o livro obteve aquando da sua publicação, o sonho de Karen regressar a África continua a não se realizar. A Segunda Guerra Mundial rebenta e, mais uma vez, Karen vê os seus planos adiados. As suas viagens não passam da Europa, na qual, agora como correspondente de um jornal dinamarquês, se desloca por algumas capitais europeias. Nessa altura, as notícias de África cessam por um “longo e obscuro tempo”. Só depois de terminada a Guerra Karen soube da morte do seu fiel Farah. “Foi difícil fazer entrar no meu espírito a notícia da morte de Farah (…) Por fim, reconheci a situação: não era a primeira vez que eu o mandava à minha frente para algum local desconhecido para ali armar tenda para mim”.
Karen continua a escrever e todas as suas publicações são um sucesso. No entanto, o seu sonho de regressar nunca será realizado.
Numa das suas últimas entrevistas Karen Blixen confessa que nunca se arrependeu de ter ido para África, apesar de aí ter perdido tudo o que mais amava. “Olhei os leões nos olhos e dormi sob o cruzeiro do Sul, vi incendiar-se o capim nas grandes pradarias que se cobrem de fina erva depois das chuvas, fui amiga de somalis, quicuios e maasais, voei sobre as colinas de Ngong (…) Nunca estarei suficientemente agradecida a África pelo muito que me deu”.
Mas lá longe da Dinamarca, lá muito para Sul, onde o sol é quente e as cores e cheiros da terra são tão diferentes do seu país de nascença, Karen iria ser sempre lembrada. Em 1955, na Somália, um movimento nacionalista e religioso insurgia-se contra os europeus. Um escritor dinamarquês foi apanhado no meio de uma dessas multidões enfurecidas. Ao começar a ser apedrejado foi de repente salvo por um homem. É que o seu salvador tinha sido criado de uma grande senhora dinamarquesa, conhecida entre todas as tribos da Somália.
Quando, anos mais tarde, um jornalista que recolhia dados para a biografia de Karen Blixen vai ao Quénia, na zona da antiga fazenda é-lhe dito que um velhote costumava aparecer, de quando em quando, pedindo autorização para se passear no parque e “pensar nos tempos que já lá vão”. O jornalista consegue contactar com o tal velhote, de nome Juma, um dos antigos empregados da baronesa e, enquanto com ele falava, duas águias voaram por cima deles, sendo apontadas por Juma como “velhas amigas da Memsahib”. Ele próprio tinha-as ouvido gritar “Deus a abençoe”.
No dia 7 de setembro de 1962, Karen Blixen morria na sua casa de Rungstedlund, na Dinamarca. Tinha 77 anos e foi enterrada, conforme pedira à família, junto a uma grande árvore, tal como o faziam os “seus” quicuios lá longe nas planícies africanas.
Actualmente, a casa de Karen Blixen no Quénia é um museu. Todas as salas e quartos estão repletos de objectos e movéis seus que foram recuperados; restos de um passado que, aos poucos, se torna fácil de identificar: o relógio de cuco, que fazia a delícia das crianças da fazenda; as peles de leões caçados nos seus inúmeros safaris; a velha máquina de escrever Corona, sua companhia em tantas noites de solidão; o gramofone que espalhava as sinfonias de Mozart pelas savanas; quadros e fotografias de antigos visitantes e criados da fazenda…
Apesar de vazia e inabitada há tantos anos, a sua presença continua muito forte. Por todos os recantos se ouve baixinho, lenta e repetidamente, um murmúrio que teimosamente não quis partir:
I had a farm in Africa… I had a farm in Africa… at the foot at Ngong Hills…
P.S. a ficção só se mistura com a realidade nas imagens aqui colocadas, umas vezes por falta das verdadeiras, outras por serem demasiado bonitas para não aparecerem…
FIM.
Ao regressar à Dinamarca Karen Blixen dá início a uma nova fase da sua vida. Era extremamente difícil para uma mulher como ela, aos 46 anos, voltar a viver com a mãe num estado de desilusão e frustração e, para culminar, totalmente arruinada.
“Nos primeiros meses após o meu regresso tive grande dificuldade em considerar fosse o que fosse como realidade”, escreveria nas suas memórias.
Karen voltara às restrições domésticas de que anos antes fugira. Era insuportável para ela ter de pedir dinheiro à mãe, até para comprar um maço de tabaco, e ainda mais insuportável era sentir-se tratada por todos como uma jovem adolescente, até mesmo pelo chauffeur, que não a deixava guiar o carro.
Além disso, a própria vida na Dinamarca estava completamente mudada. Aquela época de grandeza, com muitos bailes, caçadas e mordomia, que Karen conhecera, e toda aquela vida principesca no meio de castelos de encantar, estava em declínio.
Karen sentia-se desajustada no meio de todas aquelas paredes frias, num país onde a noite aparecia às três da tarde e a presença do Sol era ténue e fugaz, dando lugar a uma chuva fria e a um vento gélido que soprava do Norte.
A família não tinha noção do que Karen tinha perdido ao deixar África, não era só uma posição conquistada, não era apenas uma fazenda ou um negócio de café, mas sim a sua própria vida.
Durante os primeiros tempos da sua chegada, os seus sonhos foram atormentados por África e pelos seus velhos companheiros que, de noite, a vinham visitar, deixando as quentes savanas, fazendo-lhe aparições no seu quarto escuro e gelado.
Mas tudo isto lhe parecia mais real do que a sua vida ali na Dinamarca. “África fez-me, a Dinamarca destruiu-me.”
Todas as noites, durante o resto da sua vida, Karen olharia em direcção ao Sul. “Se eu conheço uma canção de África, das girafas, da lua nova africana, dos arados nos campos e dos rostos suados dos apanhadores de café, a África conhecerá uma canção minha?”
Claro que em África Karen não tinha sido esquecida; no entanto, as comunicações vindas de lá chegavam de uma forma estranha, irreal, por meio de linhas desordenadas, frases tortas, parecendo “mais como sombras ou miragens do que notícias de uma realidade”.
A maioria dos seus antigos empregados não sabia escrever e, quando algum lhe queria dar notícias, dirigia-se a um escritor de cartas profissional, geralmente indiano, que se encontrava sentado à porta dos correios, à espera de serviço. “Os escribas não sabem muito inglês e dificilmente se poderá dizer que saibam escrever, embora eles julguem saber. Para mostrarem a sua arte, enriquecem as cartas com inúmeros floreados, o que torna difícil decifrá-las.
“Eu não esqueci a si Memsahib. Ilustre Membsahib. Agora todos os seus criados nunca contentes porque fora do país. Se nós era pássaro nós voar e ir ver a si. Depois voltar. Escreva e diga a nós de volta. Nós pensamos volta. Por causa porquê? Pensamos ainda lembra nossa cara todos e nomes nossa mãe. Coisas aqui não tem boas. Se neste sítio estava velha Memsahib, gente deste sítio portava-se melhor.”
Desde que chegara à Dinamarca, Karen tentava encontrar uma forma de se tornar financeiramente independente. E, mais uma vez, é na escrita que vai encontrar um refúgio, um novo trilho que vai começar a percorrer: a de contadora de histórias.
“Pode-se suportar qualquer desgosto, se o transformarmos numa história.” Algumas delas tinha-as contado junto à lareira de Denys e resultado foi Sete Contos Góticos, que publica sob o pseudónimo masculino de Isak Dinesen, em 1933. O livro teve um enorme sucesso e, entusiasmada, Karen esperava que, com o dinheiro que rendesse a publicação, pudesse regressar a África e construir um hospital para crianças maasai. Esse sonho não iria, porém, realizar-se. Em 1936, rodeada pelos quadros que pintara na fazenda, Karen começa a escrever sobre África. “Há quem trabalhe muito para assegurar o futuro; o meu espírito gastava-se em trabalho e inquietação para assegurar o passado”.
Mas, mais uma vez, “vestida” de Sheherazade lusa, e tal como no final de cada uma das Mil e uma Noites se escrevia: “Neste momento da narração, Shererazade viu despontar a manhã e, discreta como era, calou-se”. O mesmo vai acontecer comigo…
P.S. a ficção só se mistura com a realidade nas imagens aqui colocadas, umas vezes por falta das verdadeiras, outras por serem demasiado bonitas para não aparecerem…
Depois da morte de Finch-Hatton, e com a aproximação da partida, a altiva ex-baronesa era uma sombra de si própria. Karen não acreditava que em breve deixaria para sempre o seu país do coração, tudo lhe parecia um sonho mau, algo irreal que não lhe estava a acontecer. “Durante essa época, uma coisa curiosa foi o facto de eu nunca ter acreditado que teria de abandonar a fazenda e deixar África. As pessoas à minha roda, todas elas razoáveis, diziam-me que assim teria de ser; a cada distribuição do correio recebia cartas da Dinamarca a provar que assim era e todos os factos do meu quotidiano apontavam nesse sentido. No entanto, nada se encontrava mais afastado dos meus pensamentos, e eu continuava a acreditar que os meus ossos ficariam depositados em solo africano. Esta fé tão firme não tinha outros alicerces, outra razão de ser, que não fosse a minha completa incapacidade de imaginar qualquer coisa de diferente. (…) Deste modo, fui a última pessoa a compreender que tinha que partir. Quando revejo os últimos meses que passei em África, parece-me que as coisas inanimadas se deram conta da minha partida iminente muito tempo antes de eu própria me aperceber do que se iria passar. As montanhas, as florestas, as planícies, os rios, o vento, todos sabiam que nos íamos separar. Quando comecei a fazer os acordos com o destino e as negociações acerca da venda da fazenda tiveram início, a atitude da paisagem para comigo modificou-se. Até então eu fizera parte dela: a seca havia sido como que uma febre e as flores que despontavam na planície como que um vestido novo. Naquele momento, o país desligava-se de mim, ficando um pouco para trás, a fim de eu o poder ver nitidamente como um todo.”
É nessa altura, mesmo antes de partir, que Karen tem uma alegria na imensa tristeza em que se via rodeada: o novo governador concede uma porção de terras para os seus Kikuyus na reserva florestal de Dagoretti. Finalmente a sua imensa cruzada tinha dado resultado. De certa maneira, o seu coração podia partir um pouco mais leve por saber que os seus colonos não seriam expatriados no seu próprio país.
Karen passou os últimos meses na “sua” fazenda, que já não lhe pertencia, mas que os compradores lhe tinham oferecido para que ficasse o tempo que achasse necessário cobrando-lhe, por razões legais, o aluguer de um xelim por dia.
Karen leiloou tudo o que lhe pertencia, com a ajuda sempre preciosa de Farah. “Acedera em desfazer-me de todas as coisas que me pertenciam, uma a uma, como uma espécie de resgate pela minha vida, mas na época em que nada me restava. Eu mesma era a mais leve delas todas, podendo entregar-me nas mãos do destino para que ele se livrasse de mim.”
Os seus animais domésticos, como os cães e os cavalos, também eles foram partindo, sendo oferecidos a amigos seus. “Fui até Nairobi montada no meu cavalo favorito, Rouge, muito lentamente (…) Seria estranho para Rouge, pensava eu, seguir pela estrada de Nairobi e não regressar. Instalei-o, com alguma dificuldade, no vagão de cavalos do comboio de Naivasha e senti, pela última vez, o seu focinho aveludado contra as minhas mãos e rosto. Não te deixarei partir, Rouge, sem que me cumules de bençãos.”
Não te deixarei partir, sem que me cumules de bençãos, uma frase que Karen tanto gostava de repetir e utilizar em diversas ocasiões.
Antes de deixar África a lua reinava cheia no céu que cintilava nas divisões vazias de sua casa. “Imaginei que a lua poderia estar a olhar para o interior da casa e a perguntar-se quanto tempo contava eu ainda ficar num lugar de onde já tudo o resto havia partido.”
Também em forma de despedida, os velhos kikuyus resolveram fazer “ngoma” em sua homenagem. Era um tipo de “ngoma” que outrora tivera muita importância, mas que naquele tempo raramente era realizada. No dia marcado, os velhos dançarinos começaram a chegar para representarem a dança dos anciãos, dedicada inteiramente à baronesa. Só que, no momento em que iam dar início à cerimónia, apareceu um polícia de Nairobi, informando que o Governo proibia a realização do evento.
E, quando chegou finalmente o dia da partida, Karen confessa que aprenderia uma estranha lição, a de ser possível acontecerem coisas que não conseguimos imaginar, nem antecipadamente, nem no momento em que ocorrem, nem sequer depois, quando consideradas retrospectivamente.
“Não era eu que me ia embora, não tinha poder suficiente para deixar África, era o país que, lenta e gravemente, se afastava de mim, como o mar da maré baixa. Disse adeus a cada um dos meu criados e, quando saí, apesar das cuidadosas instruções para fecharem as portas, deixaram a porta principal aberta atrás de mim. Tratava-se de um gesto característico dos nativos, como se pretendessem dizer que eu ia voltar um dia…”
Mas, mais uma vez, “vestida” de Sheherazade lusa, e tal como no final de cada uma das Mil e uma Noites se escrevia: “Neste momento da narração, Shererazade viu despontar a manhã e, discreta como era, calou-se”. O mesmo vai acontecer comigo…
Pouco antes de deixar o Quénia, no início de Maio de 1931, Karen pediu a Denys que a levasse de avião a passar uns dias em Takaunga, a casa que Denys tinha na costa do Índico, perto de Mombaça. Quando já estava tudo marcado Denys mudou de ideias, alegando que tencionava passar por Voi, no Parque de Tsavo, para ver se encontrava o rasto de uns elefantes para os seus futuros safaris. Ouvira os nativos falar de uma manada e, especialmente, de um macho, duas vezes o tamanho normal, um elefante que vagueava sozinho pelo mato. “Foi a única vez em que pedi a Denys que me levasse com ele no avião e em que ele não satisfez o meu pedido.
Partiu numa sexta-feira, dia 8.
- Espera por mim na quinta-feira – disse ele à despedida – Volto a tempo de almoçar contigo”.
Na semana seguinte, conforme combinado, Karen ficou com os olhos fixos no céu à espera de ver surgir o avião do seu amado, de ouvir o ronco do aparelho aproximar-se da fazenda, mas só tinha como resposta o silêncio do ar africano.
Como Denys tardava, Karen resolveu meter-se no carro e ir até Nairobi tratar de alguns assuntos e, tal como quando durante a 1ª Grande Guerra, quando a maioria os colonos a achavam espia ao serviço dos alemães e lhe viravam a cara, afastando-se dela em silêncio, mais uma vez, Karen foi hostilizada por este sentimento:
“fui inesperadamente acometida por esse pesadelo (…) Lá estava aquela profunda tristeza a pairar sobre a cidade, e sobre as pessoas que encontrava, e no meio dela era como se toda a gente fugisse de mim. Ninguém parava para me falar, os meus amigos quando me viam, metiam-se no carro e afastavam-se.”
Karen foi até casa de Lady McMillan onde decorria um almoço e, o mesmo silêncio mortal se fez com a sua entrada. A anfitriã pediu a Karen que a acompanhasse e, em privado comunica-lhe que houvera um acidente em Voi e, que o aparelho de Denys se despenhara e que ele morrera.
Karen pensou em ir até Tsavo no seu carro, mas as grandes chuvas já haviam começado e as estradas tornavam-se na maioria impraticáveis.
Desistindo da ideia, pediu que trouxessem os restos mortais do grande amor da sua vida para Ngong, onde os dois tantas vezes passearam, tendo até combinado que ali fariam os seus túmulos, num local onde a paisagem era a perder de vista, imensamente bela e infinitavemente grandiosa, avistando-se em dias claros lá no infinito da paisagem, o monte Quénia e o Kilimanjaro, duas das montanhas nevadas de África.
Karen guardará para sempre uma carta que Denys lhe escrevera um dia de Londres onde citava “aqueles crepúsculos de Ngong têm um ambiente de repouso e plenitude que não senti em nenhum outro sítio. Creio que poderia morrer feliz ao anoitecer em Ngong contemplando as colinas, com as suas cores magníficas desvanecendo-se sobre a cintura, cada vez mais escura, da selva próxima”.
E, assim, Denys foi enterrado numa das verdes colinas de África nos montes Ngong. “Quando o colocaram dentro da sepultura, o país modificou-se, transformando-se no cenário adequado para o acontecimento, tão imóvel como o seu corpo; as montanhas erguiam-se gravemente, sabendo e compreendendo o que estávamos ali a fazer e, poucos instantes decorridos, eram elas a encarregarem-se da cerimónia, como numa interacção com o morto, tornando-se os presentes um grupo de pequenos observadores no meio da paisagem. Denys havia observado e seguido todos os caminhos dos planaltos africanos e, melhor que qualquer outro branco, conhecera o solo, a vegetação e os animais selvagens, o vento e os odores. Observara as mudanças de tempo, as pessoas, as nuvens, as estrelas à noite. (…) Agora África recebia-o, iria transformá-lo e incorporá-lo nela”.
O jornal the Times publicaria uma notícia elogiando as qualidades do caçador branco agora transformado em lenda “morreu, como teria gostado, ao ar livre, entre amplos espaços que tanto amou; e o encanto da sua maravilhosa personalidade e companhia é algo que aqueles que o conheceram valorizarão até ao fim dos seus dias”.
Mais tarde o irmão de Denys, Lord Winchilsea, mandaria construir um obelisco sobre a sepultura, com uma inscrição com um excerto de um dos poemas preferidos de Finch-Hatton, de The Ancient Mariner.
Karen escreveria nas suas memórias que não chegou a ver o obelisco, pois foi colocado depois de ter partido do Quénia. Ainda sobre a sepultura nas verdes colinas de África, um amigo escrever-lhe-ia que uma coisa estranha se passava junto ao túmulo de Denys. Dizia ele que os maasais referiam que muitas vezes, ao nascer e ao por-do-sol, as horas mais mágicas de África, viam um leão e uma leoa sobre a sepultura. Também os comerciantes indianos que por ali passavam de quando em vez confirmavam esta história.
Mas, mais uma vez, “vestida” de Sheherazade lusa, e tal como no final de cada uma das Mil e uma Noites se escrevia: “Neste momento da narração, Shererazade viu despontar a manhã e, discreta como era, calou-se”. O mesmo vai acontecer comigo…
P.S 2 – Ao contrário de Karen cheguei a ver o obelisco no túmulo de Denys Finch-Hatton nas verdes colinas de África e, quando me encontrei junto dele por uns instantes, senti-me representar Karen… e que, através do meu olhar, ela pudesse ver como tudo estava… mas logo sorri da minha missão tonta. Karen, a sua alma estava ali, mais do que presente, junta com a de Denys. Aquela paisagem pertence-lhes… eternamente!